INDÍGENA, EXÓTICA, INVASORA
Exposição
indígena, exótica, invasora
adonis galvão
Casa da Cultura de Santa Cruz
Abertura 30 de abril
Quinta-feira 18h
-
Até 13 de junho
Seg a Sex de 9 às 17 h.
Sáb de 14 às 17 h.
R. Bela de São José
Santa Cruz
Ilha da Madeira

Coordenador | Casa de Cultura de santa Cruz
Emanuel Gaspar
Curadoria e textos
Marcia Zoé Ramos
Designer
Tomásia Castro
Equipa Técnica
Ana Filipa Pereira, Joana Sousa, Joana Spínola, Pedro Sousa, Pedro Ribeiro, Rafaela Rodrigues, Taciana Gouveia e Zé Ferreira.
Montagem
Tomás Ornelas, Diogo Ribeiro
Apoio arbóreo
Joel Souza - Viveiro Souza
APRESENTAÇÃO
Indígena, Exótica, Invasora propõe uma reflexão sobre a paisagem como um campo de relações em constante transformação, onde natureza, cultura e história se entrelaçam. Tomando o arquipélago da Madeira como território de investigação, a exposição aborda as tensões entre espécies nativas, introduzidas e invasoras, questionando categorias que buscam fixar identidades no mundo vivo.
A partir de uma compreensão da vida como rede — atravessada por deslocamentos, contaminações e alianças —, o trabalho de Adonis Galvão explora zonas de passagem entre o orgânico e o artificial, o natural e o construído. Suas obras, que transitam entre pintura, meios digitais e instalações, articulam formas e atmosferas que evocam tanto a memória de ecossistemas originários quanto cenários futuros, onde a natureza se torna também síntese e invenção.
A exposição convida o público a repensar noções de pertencimento, evidenciando a flora e paisagem como um processo impermanente mas dinâmico — simultaneamente estético, ecológico e político.
ADONIS GALVÃO
Adonis Galvão (Cataguases, MG, Brasil, 1972) é um artista luso-brasileiro cuja produção se desenvolve entre a pintura, os meios digitais e as instalações. A sua prática artística orienta-se pela investigação das formas orgânicas observadas na natureza, instaurando um campo de tensão e equilíbrio entre fluidez e leveza, entre o estático e o dinâmico. Por meio da cor, da composição e do espaço, o artista opera em zonas de passagem — entre seres, culturas e natureza —, articulando questões ligadas às transformações sociais e ambientais do mundo contemporâneo.
As suas pinturas, atravessadas por referências do naturalismo, são marcadas pela ideia de impermanência e pela tensão entre ordem e caos. Nelas, emergem também os rastros da presença humana — os seus ruídos e vestígios — como camadas que se sobrepõem à paisagem. Nas instalações, essa investigação se amplia no espaço, constituindo ambientes imersivos que convocam o corpo e ativam relações entre espaço, natureza e tempo, configurando experiências de caráter sensorial e relacional.
A partir de 2018, ao fixar residência na Ilha da Madeira, o artista passa a aprofundar pesquisas em torno das relações entre migração, etnobotânica e transformações ambientais, compreendendo a ilha como um território de convergência entre culturas e ecossistemas. Desde então, vem participando de exposições individuais e coletivas no Brasil e no exterior (Europa continental), e suas obras integram acervos no Brasil, Estados Unidos da América, Austrália, Portugal e Itália.
A prática da sua arte, configura-se como um dispositivo de composição e pensamento. Ao acompanhar tais transformações, o trabalho de Adonis Galvão não se limita à observação: intervém, desloca e reconfigura as relações entre espécies, territórios e temporalidades.
Adonis Galvão vive e trabalha na Ilha da Madeira, Portugal.
Indígena, Exótica, Invasora
Habitar o mundo é ocupar um território compartilhado, atravessado por disputas, cooperações e metamorfoses. Não existe um meio ambiente “natural” em sentido puro: todo espaço é produzido por múltiplas espécies, em relações contínuas de transformação. O ar que respiramos, por exemplo, não é dado — é resultado da ação de plantas e microrganismos. A Terra é, assim, continuamente moldada pela biodiversidade — e, de modo decisivo, pelas plantas.
Costumamos definir os seres vivos como aqueles que nascem, crescem, se reproduzem e morrem. No entanto, essa definição é insuficiente. Uma árvore ou uma flor dependem de água, solo, luz e de uma rede complexa de relações que envolve também o não vivo. A vida é sempre um entrelaçamento.
Ornamentamos com flores as instituições do imaginário humano, assim como nossas casas e rituais. No entanto, sua relevância antecede — e ultrapassa — esse gesto simbólico. A nossa existência está intrinsecamente ligada às flores, às plantas e à natureza da qual fazemos parte: somos por ela constituídos, ao mesmo tempo em que a transformamos de modo decisivo. A flor — indígena, exótica, invasora —, tema desta exposição, exemplifica uma forma de coautoria: ao delegar aos insetos a continuidade de sua espécie, evidencia um mundo tecido por interdependências, no qual cada forma de vida se sustenta em relação às outras. Também os seres humanos, como quase todos os organismos, dependem do ar para viver — e são as plantas as responsáveis por sua renovação, atuando como mediadoras do metabolismo atmosférico e arquitetas do equilíbrio climático do planeta.
Emanuele Coccia escreveu que o mundo é, antes de tudo, uma entidade vegetal
— mais jardim do que zoológico. As plantas não apenas habitam esse jardim; são elas que o concebem e cultivam. Nós, como todos os animais, somos produtos dessa jardinagem profunda, simultaneamente cultural e agrícola. As plantas não compõem a paisagem: são as primeiras a imaginá-la, moldá-la e transformá-la.
Nesse contexto, categorias como “indígena”, “exótica” e “invasora” revelam tanto quanto limitam nossa compreensão. Elas projetam sobre o mundo vivo ideias de fronteira, controle e pertencimento. No entanto, a vida opera por deslocamentos, contaminações e alianças. Não há territórios fixos: todos os seres são, em alguma medida, migrantes e coautores do espaço que habitam.
As obras aqui reunidas do artista visual Adonis Galvão, na sua exposição “Indígena, Exótica, Invasora”, tomam o arquipélago da Madeira como campo de investigação sensível: das florestas originárias, que enraízam a memória de um mundo anterior, às espécies introduzidas que se tornaram paisagem, à exuberância das flores, até as plantas invasoras que se expandem pelo território.
AS SALAS
SALA 1
Antes de qualquer chegada, havia a floresta, memória viva da terra. O arquipélago da Madeira existiu durante milénios como um mundo completo em si mesmo —
ilhas nascidas do fogo submarino, cobertas por florestas que a Europa continental há muito havia perdido. A Laurissilva, floresta de loureiros, dragoeiros e tis, é uma relíquia do período Terciário: sobreviveu às glaciações quando o resto desapareceu, guardando formas de vida que já não existem em nenhum outro lugar do planeta. O Zambujal, floresta costeira de oliveiras bravas, habitou as encostas mais expostas ao vento e ao sal — mais frágil, mais fragmentado, mais vulnerável ao que viria.
Estas florestas não são apenas ecossistemas. São arquivos. Cada árvore carrega em si uma forma de tempo que escapa à medida humana.
O artista propõe um olhar sobre o arquipélago na sua totalidade — não apenas a ilha principal, mas o corpo completo: o Porto Santo, as Ilhas Selvagens, as Ilhas Desertas. Perfis de terra no oceano, cada uma com a sua solidão e a sua vida
própria. Um arquipélago é, por natureza, uma multiplicidade sem centro fixo — ilhas que existem em relação, separadas pela água que também as une.
O seu Vaso de Flores “INDÍGENAS, EXÓTICAS, INVASORAS” dá boas-vindas ao visitante e convida a pensar nas analogias complexas entre natureza e a condição humana. Ele nos alerta de que nada é para sempre.
Os pássaros atravessam as pinturas de Galvão desde sempre, como personagens essenciais.
Aqui ele apresenta alguns semeadores invisíveis da floresta que transportam pólen e sementes, faz brotar flores os frutos, abrem clareiras, ligam pontos do território que nenhum caminho humano alcança. Sem os pássaros, a Laurissilva não sobreviveria.
No centro da sala, o artista nos apresenta sua réplica da Caixa de Ward — aquela invenção do século XIX que permitiu transportar plantas vivas através dos oceanos sem que morressem. Foi ela que acelerou a circulação global de espécies: Galvão imaginou sua caixa transportando para a Madeira a vinha, a cana de açucar, a bananeira, a anoneira, a mangueira, o maracujazeiro. Plantas que hoje parecem tão madeirenses quanto a própria pedra basáltica, vulcânica. A caixa é um objeto aparentemente inocente — mas é também o símbolo de uma
transformação irreversível: o momento em que a ilha deixou de ser apenas o que era para se tornar também o que recebeu.
A obra “REVOREDO” é uma homenagem à casa que recebe o artista, mas também representa as duas florestas em corpo, a respirar na sala. São árvores reais, vivas, presentes, que se misturam e incorporam a flora e fauna da Madeira.
SALA 2 — DRAGOEIRO
“Será somente apropriado, então, seguir a ordem das invenções humanas, e falar dessas árvores antes”
Plínio, o Velho
Há árvores que existem antes da memória humana. O dragoeiro é uma delas. Árvore perene da Laurissilva, de crescimento lentíssimo, que pode viver séculos sem que o olho humano perceba qualquer mudança visível.
A sua silhueta é inconfundível: o tronco robusto que se abre em copa densa e esférica. Não cresce em linha reta como as árvores que conhecemos — ramifica-se apenas quando floresce, dividindo-se e tornando-se mais complexa a cada ciclo de vida. A sua idade, impossível de medir pelos anéis como nas outras árvores, guarda-se no segredo da sua própria arquitetura.
Plínio, o Velho, na sua “História Natural”, escrita entre os anos 77 e 79 d.C., descreveu as Ilhas Afortunadas — hoje associadas à Macaronésia — como um paraíso terrestre de clima ameno e vegetação exuberante. Entre as suas riquezas, destacou as resinas preciosas que escorriam das árvores dessas ilhas. O sangue de dragão foi durante séculos um dos materiais mais disputados da Europa:
usava-se como verniz, como pigmento, como medicamento. Curava feridas, selava madeiras, tingia tecidos, aparecia em tratados de alquimia e em poemas. A árvore era, simultaneamente, farmácia, pintura e mito. Essa disputa quase a extinguiu.
Hoje, poucos exemplares sobrevivem nas ilhas. A árvore que curava foi consumida pela mesma ambição humana que move todas as extrações. O dragoeiro tornou-se, para a maioria dos habitantes da Madeira, uma presença quase invisível — conhecida de nome, desconhecida de corpo.
O artista, observador da natureza, começa por seu território/quintal no Funchal, quando avista duas dessas majestosas árvores e cria uma série dedicada a ela.
As seis pinturas desta sala percorrem os pontos da ilha onde ele ainda existe — retratos de uma sobrevivência discreta, quase teimosa. Não há dramatismo de extinção: Galvão preza a beleza acima de tudo. O seu traço procura abarcar os detalhes, as sutilezas desta presença serena, de algo que aprendeu a durar resistindo ao esquecimento.
Uma mesa guarda os vestígios da investigação do artista: mapas antigos, citações em poemas, etimologias, fotografias, desenhos botânicos, textos e tratados. Um arquivo afetivo e histórico que devolve ao dragoeiro a profundidade que o tempo foi apagando.
Se a raiz, na filosofia de Gilles Deleuze e Félix Guattari, é aquilo que funda e persiste — o dragoeiro é uma raiz que quase perdeu o chão. Não invade, não prolifera, não se espalha. Fica. Resiste pelo simples ato de continuar a existir onde sempre existiu.
SALA 3 — INVASORAS
“ Artigo 7- A Nação das plantas não tem fronteiras. Todo ser vivo é livre para transitar por ela, mudar-se para ela e nela viver sem nenhum entrave.”
Stefano Mancuso, in A Nação das Plantas
Um mapa é sempre uma decisão sobre o que merece ser visto, e os mapas turísticos distribuídos gratuitamente na chegada à ilha são objetos de boas-vindas: mostram praias, miradouros, restaurantes, estradas. Mostram a Madeira como destino, como paisagem ordenada, como lugar que se deixa percorrer.
O que não mostram é o que cresce nas margens desses caminhos, nas encostas entre os pontos de referência, nos terrenos que nenhum turista visita. O que não mostram são as invasoras e sua floração.
Emanuele Coccia defende que “a vida das plantas é uma cosmogonia em ato, a génese constante do nosso cosmos. As implicações práticas desta visão são profundas e convidam-nos a repensar a nossa relação com o meio ambiente”. Nesse sentido, não é intuito do artista estabelecer uma posição sobre esses vegetais ou investigar qual pode ser a influência dos diversos agentes sobre a forma ou extensão de propagação, quais são as causas que podem expandi-la e aquelas que devem limitá-la.
Ele sabe que raramente a população vegetal de um território lhe pertence por inteiro. As plantas ou são originárias do solo que habitam, ou são espécies colonizadas, transportadas por diversos meios. Para ele, o que interessa é que cada planta tem seu paraíso, seu ponto central, do qual parte e irradia.
Nos mapas “turísticos”, Galvão intervém sobre essa silenciosa invasão. Cada mapa recebeu a pintura, de traço delicado e realista do artista, de uma planta invasora em floração — bela, vigorosa, em plena expansão. A flor sobre o mapa é uma sobreposição de realidades: por baixo, o território tal como o poder o representa; por cima, o território tal como ele realmente cresce.
As invasoras não aparecem nos roteiros turísticos, mas estão em toda a parte — tentando, de todas as formas, ganhar terreno. São o rizoma que os mapas oficiais recusam cartografar.
Os Mapas das Invasoras transformam a cópia oficial do território num mapa vivo, onde o que foi apagado retorna em flor.
A obra “CABOSATLÂNTICOS” aprofunda esta ideia de invasão invisível, mas desce ao subterrâneo, ao submarino. Sobre uma cartografia antiga da ilha o artista traça as rotas dos cabos de fibra ótica intercontinentais que hoje atravessam o fundo do
oceano.
A Madeira é, geograficamente, um nó: ponto de encontro entre a Europa, África e as Américas. Por baixo da água que a cerca passam fluxos de dados que conectam continentes inteiros. Ninguém os vê. Ninguém os sente. Mas tudo o que comunicamos, pesquisamos e transmitimos viaja por ali.
O artista lê esses cabos como uma invasão tecnológica silenciosa, submersa, subterrânea. Não de raízes nem de rizomas vegetais, mas de redes digitais que replicam, à sua maneira, a mesma lógica de expansão horizontal e invisível. O rizoma tornou-se fibra de vidro.
No centro da sala, reina a obra “RODAVIVA”: o mar trouxe o que ninguém encomendou. Galvão recolheu, no Arco de São Jorge — numa das encostas mais selvagens da ilha, onde também compartilha uma residência centenária com seu parceiro filósofo — os objetos depositados pelas marés: madeiras sem origem conhecida, plásticos deformados pelo sal e pelo tempo, restos de corda,
fragmentos de morfologia irreconhecível.
Em andanças, encontrou cacos de porcelana, garrafas vazias, vidros, sementes exóticas.
Todos esses vestígios estão dispostos em uma instalação que não tem outro autor além do próprio oceano. O artista auxilia como coletor e ordenador estético.
Cada maré é uma edição nova — retira, acrescenta, abaula, transforma. Os objetos chegaram de lugares que não sabemos nomear, percorreram distâncias
que não conseguimos medir e depositaram-se aqui como uma escrita que não lemos, mas que existe.
Esta é a mais nova invasão: nem vegetal nem digital, mas detrital. A invasão do que o mundo descarta e o mar redistribui. Uma metamorfose constante, sem intenção e sem destino — puro movimento, pura chegada.
As obras são cartografias do que não se mostra: a planta que floresce fora do mapa, o cabo que liga continentes no fundo do mar, o objeto que o oceano traz.
A ilha, percebemos, nunca foi apenas o que os mapas disseram que era.
SALA 4 — O JARDIM
Utopia. Do grego ou-topos: o lugar que não existe.
Thomas More criou a palavra em 1516 para descrever uma ilha imaginária de sociedade justa e perfeita — uma crítica disfarçada de sonho. Utopia passou, desde então, a significar o desejo de um mundo melhor do que este, situado em um lugar que nenhum mapa consegue identificar: uma ilha separada do mundo real pela água que a protege da imperfeição.
Os painéis da obra “FLORDACANA-DE-AÇUCARIMPACTAAPRODUÇÃO” foram criados por Galvão, inteiramente em computação gráfica e impressos em cores vibrantes — o horizonte da Madeira ornado de canas em flor, pássaros em voo, uma paisagem exuberante e luminosa. Bela como uma memória que nunca existiu, ou como um futuro que escolhemos acreditar possível.
O artista apresentou a instalação num jardim real, na Ponta do Sol — imagens do natural colocadas no meio da natureza, criando um espelho que reflete e, ao mesmo tempo, substitui.
Adonis Galvão observa que “a floração da cana não é vista, pois é impedida porque compromete a produtividade; assim como ideias, pessoas, projetos e ciclos são inibidos de aflorar, pois impactam um determinado sistema. A proposta de uma instalação de florada de cana-de-açúcar quer ressaltar a importância do que não é visto. As formas triangulares das flores da cana representam a unidade, os quatro elementos — terra, água, fogo e ar —, sem os quais não existe natureza. A flor representa a vitalidade, o recomeço do ciclo, metáfora da energia vital.”
Aqui, dentro da sala, nesse horizonte digital, as flores nunca murcham. A invasão mais recente não tem raízes, não tem rizomas, não tem sementes. Não cresce.
Não morre. Apenas permanece.
Coccia afirma que o meio ambiente natural, tal como a modernidade o imaginou, não existe — o mundo está sempre, em todas as suas partes, concebido e construído. Cada espécie é, simultaneamente, artista e curadora das demais. A história da Terra é uma história da arte.
Nesse sentido, o jardim-síntese é também uma obra da nossa espécie — uma expressão do que nos tornamos, uma curadoria do que escolhemos ver. Se cada ser vivo habita estruturas que não criou sozinho, esse jardim é uma utopia invertida: não o lugar que não existe como promessa, mas o lugar que não existe como advertência.
Marcia Zoé Ramos
(Formada em Artes Visuais, História da Arte, Antropologia e Fotografia. Professora de arte, orientadora, gestora e produtora cultural. Vive e trabalha no Rio de Janeiro — Brasil.)
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